O Pirralho – Causos da Roça

Hoje me lembrei de um acontecimento familiar interessante, do início da década de 1990, que envolve pessoas muito queridas.

Naquele dia, eu estava em viagem de serviço, e minha família permanecia em nossa residência, em Belo Horizonte.

Meu saudoso irmão Aguimar, que morava em Brasília, esteve em Abaeté visitando nossa mãe e, de lá, seguiu para a capital mineira para ver os irmãos e sobrinhos que ali moravam.

A última visita foi à minha casa. Mesmo sabendo que eu não estava, fez questão de visitar minha esposa e meus filhos. Quando se despediu para ir à rodoviária pegar o ônibus de volta a Brasília, minha esposa, para ser gentil com o cunhado, resolveu chamar um táxi e acompanhá-lo até o terminal.

Ao chegar lá, nem desceu do carro: apenas se despediu e pediu ao motorista que fizesse o caminho de volta, pois havia deixado o filho mais novo, de sete anos, sozinho em casa. Os irmãos estavam no colégio.

O que ela não imaginava é que, nesse intervalo, o caçula, já alfabetizado e bastante esperto, começou a se preocupar com a solidão e decidiu agir. Pegou o “catálogo de telefones” (aquele livrão amarelo que, à época, era tão importante quanto o Google de hoje), achou o número da rodoviária e ligou para o serviço de informações. Foi transferido para outro setor e, com toda a seriedade, fez um pedido de emergência.

Poucos minutos depois, meu irmão levou um susto com o seguinte anúncio no serviço de alto-falante: “Atenção, senhora Vitória Oliveira: o senhor Rodrigo Augusto pede para a senhora ligar agora para sua residência.” O tio Aguimar não teve dúvida. Correu até uma cabine telefônica, ligou para minha casa e foi atendido pelo pequeno Rodrigo, que, depois de assegurar que estava bem, levou uma bronca do tio e
foi informado de que a mãe já estava a caminho.

Antes de embarcar, meu irmão ainda voltou ao balcão do serviço de alto-falante e pediu que desconsiderassem o aviso, explicando que “o senhor Rodrigo era apenas um pirralho com medo de ficar sozinho em casa”.

Postado por: Renato Alves

Eustáquio é ex-presidente da Cooperabaeté.

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