Produtos Veterinários: Uso Responsável e Consequências

Todos sabemos dos impactos e das perdas econômicas para os produtores de leite devido aos parasitos internos e externos de bovinos. Estamos nos referindo às verminoses e outras parasitoses internas, além de infestações causadas principalmente por carrapatos, bernes e moscas (parasitos externos). Para reduzir o impacto destas parasitoses, precisamos utilizar produtos veterinários como vermífugos e produto ectoparasiticidas, para o controle de vermes, carrapatos, bernes, entre outros.

É importante destacar que o uso destes produtos veterinários, em especial de endoparasiticidas (para vermes e parasitas internos) e ectoparasiticidas (para carrapatos, piolhos e moscas), é essencial para garantir a sanidade animal e produtividade das propriedades rurais. No entanto, o uso excessivo, indiscriminado ou incorreto desses produtos pode trazer sérias consequências para os animais, produtores, consumidores e para o meio ambiente. Por isto, destacamos que o uso destes medicamentos deve ser responsável, racional e sob orientação técnica.

E por que estes medicamentos devem ser usados de forma responsável? Para responder esta pergunta, é importante destacar alguns aspectos. O primeiro deles é que a legislação brasileira (Instrução Normativa no 162/2022 (Brasil, 2022) estabelece o Limite Máximo de Resíduos (LMR) no leite para os medicamentos que podem ser usados e para aqueles que não podem ser utilizados em animais produtores de leite para consumo humano. Recomenda-se atenção quanto aos produtos que não têm autorização de uso em vacas produtoras de leite para consumo.

Além da questão legal, as consequências de uso indiscriminado destes medicamentos geram problemas aos produtores, indústrias e consumidores. Para os produtores, destacamos: a) perda de eficácia dos produtos devido à resistência dos parasitos e com isto, falhas no controle de carrapatos e moscas e riscos de doenças como a tristeza parasitária bovina (babesiose e anaplasmose); b) aumento dos custos de tratamentos,
pois é preciso usar mais produtos ou associar moléculas para garantir um controle eficiente; c) perdas produtivas por falhas no controle (reduão da produção de leite, do ganho de peso, da fertilidade, etc.)

No caso das indústrias de laticínios, os problemas do uso irresponsável destes produtos veterinários estão relacionados a riscos de problemas com resíduos no leite e em derivados lácteos, por: a) ocorrência de não conformidades, recebimento de autos de infração e ainda, o comprometimento de possíveis exportações e; b) rejeição e não liberação de lotes de leite por presença de resíduos de princípios ativos destes medicamentos acima dos limites máximos permitidos. Para os consumidores, os principais problemas decorrem de: a) risco à saúde pelo consumo de alimentos com resíduos destes medicamentos; e b) desconfiança sobre a segurança dos produtos de origem animal.

Para evitar estes problemas, é necessário que os medicamentos sejam usados corretamente. As ações para o sucesso do controle dos parasitos internos e externos incluem:

1. Diagnóstico prévio: o uso de qualquer antiparasitário deve ser precedido de exames laboratoriais como: a) contagem de ovos por grama de fezes (OPG) para endoparasitos (vermes); b) monitoramento da infestação de carrapatos (contagens de carrapatos em pontos específicos do corpo); c) Testes de biocarrapaticitograma para avaliação da postura de carrapatos e da viabilidade dos ovos).

2. Escolha do medicamento: deve considerar: a) o parasito a ser controlado; b) a fase de vida do parasito; c) o histórico de eficácia na propriedade; d) se o produto é permitido para uso em vacas produtoras de leite para

consumo humano, conforme a legislação brasileira. 3. Respeito ao período de carência: todos os medicamentos possuem um período de carência que deve ser respeitado para garantir que não seja veiculado resíduos no leite.

4. Dosagem correta e aplicação adequada: é essencial destacar que a subdosagem favorece a resistência e que o método de aplicação no caso do controle de carrapatos (banho de imersão, pour-on, injetável, oral) deve seguir as instruções do fabricante e orientação técnica.

É muito importante e recomendado que toda propriedade tenha um programa sanitário que inclua, além das vacinações dos animais, um planejamento sanitário de controle de endo e de ectoparasitos. Para isto, o médico veterinário deve ser consultado, para que todos os protocolos possam ser desenvolvidos, especificamente, para a situação de cada propriedade.

Não se pode esquecer de que o uso de produtos para controle de endoparasitos (vermes e protozoários) e de ectoparasitos (principalmente carrapatos, bernes e moscas) sem aprovação para uso em vacas produtoras de leite para consumo humano (Quadro 1) pode resultar em grave problema para o produtor por colocar em risco a obtenção de leite seguro, com risco de veiculação de resíduos que podem causar sérios agravos à saúde humana.

Quadro 1. Relação de endo e ectoparasiticidas não aprovados parauso em vacas produtoras de leite para consumo (IN 162/2022).

Publicado por: Renato Alves

Author:
Professora Titular da Escola de Veterinária da UFMG. Parceira da CCPR no Programa Tudo Nos Conformes.

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