Trabalhei como consultor do Eustáquio Márcio durante uns cinco ou seis anos, na época do Educampo. Ele me recebia todo mês com um café passado na hora e muita conversa – daquelas bem compridas, que não acabam nunca. Gente boa, mas a prosa era ruim demais da conta. E eu digo isso com todo carinho: ruim de tão boa.
De manhã já tinha café com história, e no fim da tarde, antes de eu ir embora, ele inventava um lanche só pra prosear mais um pouco. Era sempre assim.
Um dia, estávamos almoçando lá na fazenda, e ele chegou com aquele jeitão dele, se ajeitou na cadeira e mandou, do nada:
– Rogério, qual que é a primeira lembrança que você tem da sua vida?
Quis fazer graça e respondi:
– A primeira lembrança que eu tenho, Eustáquio, foi o dia que o médico me puxou pela cabeça, vi uma claridade danada, chorei, me deram um tapa na bunda… Foi o dia que eu nasci!
Ele deu aquela risada dele, meio contida, e rebateu sem pensar duas vezes:
– Uai, Rogério… a primeira lembrança que eu tenho foi lá no Riacho das Areias. Fui pra um piquenique com meu pai… e voltei com a minha mãe!
E foi assim que a prosa do Eustáquio ganhou de novo. Quem dera toda conversa ruim fosse tão boa de escutar.
Por: Rogério Lage de Oliveira – Presidente da Cooperabaete





